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TU, S TU,
PURO AMOR
Machado
de Assis
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TU, S TU, PURO AMOR
COMDIA
Tu s, tu, puro amor, com fora crua,
Que os coraes humanos tanto obriga...
Cames, Lusadas, 3, CXIX.
O desfecho dos amores palacianos de Cames e de D. Catarina de
Atade  o objeto da comdia, desfecho que deu lugar  subseqente
aventura de frica, e mais tarde  partida para a ndia, donde o poeta devia
regressar um dia com a imortalidade nas mos. No pretendi fazer uma
quadro da corte de D. Joo II, nem sei se o permitiam as propores
mnimas do escrito e a urgncia da ocasio. Busquei sim haver-me de
maneira que o poeta fosse contemporneo de seus amores, no lhe dando
feies picas, e, por assim dizer, pstumas.
Na primeira impresso escrevi uma nota, que reproduzi na segunda,
acrescentando-lhe alguma coisa explicativa. Como na cena primeira se trata
da anedota que motivou o epigrama de Cames ao duque de Aveiro, disse
eu ali que, posto se lhe no possa fixar data, usaria dela por me parecer um
curioso rasgo de costumes. E aduzi: Engana-se, creio eu, o Sr. Tefilo
Braga, quando afirma que ela s podia ter ocorrido depois do regresso de
Cames a Lisboa, alegando, para fundamentar essa opinio, que o ttulo de
duque de Aveiro foi criado em 1557. Digo que se engana o distinto escritor,
porque eu encontro o duque de Aveiro, cinco anos antes, 1552, indo
receber, na qualidade de embaixador, a princesa d. Joana, noiva do prncipe
d. Joo (Veja Mem. e Doc. Anexos aos Anis de d. Joo III, pgs. 440 e
441); e, se Cames s em 1553 partiu para a ndia, no  impossvel que o
epigrama e o caso que lhe deu origem fossem anteriores.
Temos ambos razo, o Sr. Tefilo Braga e eu. Com efeito, o ducado
de Aveiro s foi criado formalmente em 1557, mas o agraciado usava o
ttulo desde muito antes, por merc de D. Joo III:  o que confirma a
prpria carta rgia de 30 de agosto daquele ano, textualmente inserta na
Hist. Geneal... de d. Antnio Caetano de Souza, que cita em abono da
asserso o testemunho de Andrade, na Crnica del-rei d, Joo III. Naquela
mesmas obra se l (liv. IV, cap. V) que em 1551, na transladao dos ossos
del-rei D, Manuel estivera presente o duque de Aveiro. No  pois
impossvel que a anedota ocorresse antes da primeira ausncia de Cames.
MACHADO DE ASSIS.
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PERSONAGENS
CAMES
ANTNIO DE LIMA
CAMINHA
D. MANUEL DE PORTUGAL
D. CATARINA DE ATADE
D. FRANCISCA DE ARAGO
Sala no pao
CENA I
CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL
(Caminha vem do fundo, da esquerda; vai a entrar pela porta da direita,
quando lhe sai Manoel de Portugal, a rir).
CAMINHA - Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos El-rei
alguma coisa graciosa, de certo...
D. MANUEL - No; no foi El-rei. Adivinhai o que seria, se  que o no
sabeis j.
CAMINHA - Que foi?
D. MANUEL - Sabeis o caso da galinha do duque de Aveiro?
CAMINHA - No.
D. MANUEL - No sabeis ? - Pois  isto: uns versos mui galantes do nosso
Cames. (Caminha estremece e faz um gesto de m vontade.) Uns versos
como ele os sabe fazer. ( parte.) Doe-lhe a noticia. (Alto.) Mas, deveras
no sabeis do encontro de Cames com o duque de Aveiro?
CAMINHA - No.
D. MANUEL - Foi o prprio duque que mo contou agora mesmo, ao vir de
estar com El-rei...
CAMINHA - Que houve ento?
D. MANUEL - Eu vo-lo digo; achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o
duque e o poeta...
CAMINHA, com enfado. - O poeta! O poeta! No  mais que engenhar a uns
poucos versos, para ser logo poeta! Desperdiais o vosso entusiasmo,
senhor D. Manuel. Poeta  o nosso S, o meu grande S! Mas, esse
arruador, esse brigo de horas mortas...
D. MANUEL - Parece-vos ento...?
CAMINHA - Que esse moo tem algum engenho, muito menos do que lhe diz
a presuno dele e a cegueira dos amigos; algum engenho no lhe nego eu.
Faz sonetos sofrveis. E canes... Digo-vos que li uma ou duas, no de todo
mal alinhavadas. Pois ento? Com boa vontade, mais esforo, menos
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soberba, gastando as noites, no a folgar pelas locandas de Lisboa, mas a
meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vir a ser...
D. MANUEL - Acabe.
CAMINHA - Est acabado: um poeta sofrvel.
D. MANUEL - Deveras? Lembra-me que j isso mesmo lhe negastes.
CAMINHA, sorrindo. - No meu epigrama, no? E nego-lho ainda agora, se
no fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama? Fi-lo por
desenfado, no por dio... Dizei, que tal vos pareceu ele?
D. MANUEL - Injusto, mas gracioso.
CAMINHA - Sim? Tenho em mui boa conta o vosso parecer. Algum tempo
supus que me desdenhveis. No era impossvel que assim fosse. Intrigas
da corte do azo a muita injustia; mas principalmente acreditei que fossem
artes desse rixoso... Juro-vos que ele me tem dio.
D. MANUEL - O Cames?
CAMINHA - Tem, tem...
D. MANUEL - Por qu?
CAMINHA - No sei, mas tem. Adeus.
D. MANUEL - Ides-vos?
CAMINHA - Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante. (Corteja-o e
dirige-se para a porta da direita. D. Manuel dirige-se para o fundo.)
D. Manuel, andando.
Eu j vi a taverneiro
vender vaca por carneiro...
CAMINHA, volta-se. - Recitais versos?... So vossos?... No me negueis o
gosto de os ouvir.
D. MANUEL - Meus no; so de Cames... (Repete, descendo a cena.)
Eu j vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...
CAMINHA, sarcstico. - De Cames?... Galantes so. Nem Virglio os daria
melhores. Ora, fazei o favor de repetir comigo:
Eu j vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...
- E depois v, dizei-me o resto, que no quero perder iguaria de to fino
sabor.
D. MANUEL - O duque de Aveiro e o poeta encontraram-se ontem na igreja
do Amparo. O duque prometeu ao poeta mandar-lhe uma galinha de sua
mesa, mas s lhe mandou um assado. Cames retorquiu-lhe com estes
versos, que o prprio duque me mostrou agora, a rir:
Eu j vi a taverneiro,
Vender vaca por carneiro.
Mas no vi, por vida minha,
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vender vaca por galinha,
seno ao duque de Aveiro.
- Confessai, confessai senhor CAMINHA, vs que sois poeta, confessai que
h a certo pico, e uma simpleza de dizer... No vale tanto de certo como os
sonetos dele, alguns dos quais so sublimes, aquele por exemplo:
De amor escrevo, de amor trato e vivo...
ou este
Tanto de meu estado me acho incerto...
- Sabeis a continuao?
CAMINHA - At lhe sei o fim:
Se me pergunta algum porque assim ando
respondo que no sei, porm suspeito
que s porque vos vi, minha senhora.
- (Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora... Sabeis vs, de certo, quem 
esta senhora do poeta, como eu o sei, como o sabem todos... Naturalmente
amam-se ainda muito?
D. Manuel,  parte. - Que querer ele?
CAMINHA - Amam-se por fora.
D. MANUEL - Cuido que no.
CAMINHA - Que no?
D. MANUEL - Acabou, como tudo acaba.
CAMINHA, sorrindo. - Anda l; no sei se me dizeis tudo. Amigos sois, e no
 impossvel que tambm vs... Onde est a nossa gentil senhora D.
Francisca de Arago?
D. MANUEL - Que tem?
CAMINHA - Vede: um simples nome vos faz estremecer. Mas sossegai, que
no sou vosso inimigo; mui ao contrrio, amo-vos, e a ela tambm... e
respeito-a muito. Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou
ter com El-rei. (Sai pela direita.)
CENA II
DOM MANUEL DE PORTUGAL
- Este homem!... Este homem!... Como se os versos dele, duros e
insossos... (Vai  porta por onde Caminha saiu e levanta o reposteiro.) L
vai ele; vai cabisbaixo; rumina talvez alguma coisa. Que no sejam versos!
(Ao fundo aparecem D. Antnio de Lima e D. Catarina de Atade.)
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CENA III
D. MANUEL DE PORTUGAL, D. CATARINA DE ATADE, D. ANTNIO DE LIMA
D. ANTNIO DE LIMA - Que espreitais a, senhor D. Manuel.
D. MANUEL - Estava a ver o porte elegante do nosso Caminha. No vades
supor que era alguma dama. (Levanta o reposteiro.) Olhai, l vai ele a
desaparecer. Vai a El-rei.
D. ANTNIO - Tambm eu. Tu, no, minha boa Catarina. A rainha esperate.
(D. Catarina faz uma reverncia e caminha para a porta da esquerda.)
Vai, vai, minha gentil flor... (A D. Manuel.) Gentil, no a achais?
D. MANUEL - Gentilssima.
D. ANTNIO - Agradece, Catarina.
D. Catarina - Agradeo; mas o certo  que o senhor D. Manuel  rico de
louvores...
D. MANUEL - Eu podia dizer que a natureza  que foi conosco prdiga de
graas; mas, no digo; seria repetir mal aquilo que s poetas podem dizer
bem. (D. Antnio fecha o rosto.) Dizem que tambm sou poeta,  verdade;
no sei; fao versos. Adeus, senhor D. Antnio... (Corteja-os e sai. D.
Catarina vai a entrar,  esquerda. D. Antnio detm-na.)
CENA IV
D. ANTNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATADE
D. ANTNIO - Ouviste aquilo?
D. Catarina, parando. - Aquilo?
D. ANTNIO - Que s poetas podem dizer bem foram as palavras dele. (D.
Catarina aproxima-se.) Vs tu, filha? to divulgadas andam j essas coisas,
que at se dizem nas barbas de teu pai!
D. CATARINA - Senhor, um gracejo...
D. ANTNIO, enfadando-se. - Um gracejo injurioso, que eu no consinto,
que no quero, que me doe... Que s poetas podem dizer bem E que 
poeta! Pergunta ao nosso Caminha o que  esse atrevido, o que vale a sua
poesia... Mas, que seja outra e melhor, no a quero para mim, nem para ti.
No te criei para entregar-te s mos do primeiro que passa, e lhe d na
cabea haver-te.
D. CATARINA, procurando moder-lo. - Meu pai...
D. ANTNIO - Teu pai e teu senhor!
D. CATARINA - Meu senhor e pai... juro-vos que... Juro-vos que vos quero e
muito... Por quem sois, no vos irriteis contra mim!
D. ANTNIO - Jura que me obedecers.
D. CATARINA - No  essa a minha obrigao?
D. ANTNIO - Obrigao , e a mais grave de todas. Olha-me bem, filha; eu
amo-te como pai que sou. Agora, anda, vai.
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CENA V
D. ANTNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATADE, D. FRANCISCA DE ARAGO
D. ANTNIO - Mas no, no vs sem falar  senhora D. Francisca de
Arago, que a nos aparece, fresca como a rosa que desabotoou agora
mesmo, ou, como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu ouvi h tantos
anos, por tempo do nosso serenssimo senhor D. Manuel... Velho estou,
minha formosa dama...
D. FRANCISCA - E que dizia a farsa?
D. ANTNIO - A farsa dizia:
 bonita como estrela,
Uma rosinha de Abril,
Uma frescura de maio,
To manhosa.
To sutil!
- Vede que a farsa adivinhava j a nossa D. Francisca de Arago, uma
frescura de maio, to manhosa, to sutil...
D. FRANCISCA - Manhosa, eu?
D. ANTNIO - E sutil. No vos esquea a rima, que  de lei. (Vai a sair pela
porta da direita; aparece Cames.)
CENA VI
OS MESMOS, CAMES
D. CATARINA,  parte. - Ele!
D. FRANCISCA, baixo a D. Catarina. - Sossegai!
D. ANTNIO - Vinde c, senhor poeta das galinhas. J me chegou aos
ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo, sim; e estou que no vos custaria
mais tempo a faz-lo do que eu a dizer-vos que me divertiu muito... E o
duque? O duque, ainda no emendou a mo? H de emendar, que no 
nenhum mesquinho.
CAMES, alegremente. - Pois El-rei deseja o contrrio...
D. ANTNIO - Ah! Sua Alteza falou-vos disso?... Contar-mo-eis em tempo.
(A D. Catarina, com inteno). Minha filha e senhora, no ides ter com a
rainha? Eu vou falar a El-rei. (D. Catarina corteja-os e dirige-se para a
esquerda; D. Antnio sai pela direita.)
CENA VII
OS MESMOS, menos D. ANTNIO DE LIMA
(D. Catarina quer sair, D. Francisca de Arago detm-na.)
D. FRANCISCA - Ficai, ficai...
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D. CATARINA - Deixe-me ir!
CAMES - Fugis de mim?
D. CATARINA - Fujo... Assim o querem todos.
CAMES - Todos quem?
D. FRANCISCA, indo a Cames. - Sossegai. Tendes, na verdade, um gnio,
uns espritos... Que h de ser? Corre a mais e mais a notcia dos vossos
amores... e o senhor D. Antnio, que  pai, e pai severo...
CAMES, vivamente a D. Catarina. - Ameaa-vos?
D. CATARINA - No; d-me conselhos... bons conselhos, meu Lus. No vos
quer mal, no quer... Vamos l; eu  que sou desatinada. Mas passou.
Dizei-nos l esses versos de que falveis h pouco. Um epigrama, no ? H
de ser to bonito como os outros... menos um.
CAMES - Um?
D. CATARINA - Sim, o que fizestes a D. Guiomar de Blasf.
CAMES, com desdm. - Que monta? Bem frouxos versos.
D. FRANCISCA - No tanto; mas eram feitos a D. Guiomar, e os piores
versos deste mundo so os que se fazem a outras damas. (A D. Catarina.)
Acertei? (A Cames.) Ora, andai, vou deixar-vos; dizei o caso do vosso
epigrama, no a mim, que j o sei de cor, porm a ela que ainda no sabe
nada... E que foi que vos disse El-rei?
CAMES - El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um pouco a sua
real vista, e disse com brandura: - Tomara eu, senhor poeta, que todos os
duques vos faltem com galinhas, por que assim nos alegrareis com versos
to chistosos.
D. FRANCISCA - Disse-vos isto?  um grande esprito El-rei!
D. CATARINA, a D. Francisca. - No ? (A Cames.) E vs que lhe dissestes?
CAMES - Eu? nada... ou quase nada. Era to inopinado louvor que me
tomou a fala. E, contudo, se eu pudesse responder agora... agora que
recobrei os espritos... dir-lhe-ia que h aqui (leva a mo  fronte) alguma
coisa mais do que simples versos de desenfado... dir-lhe-ia que... (Fica
absorto um instante, depois olha alternadamente para as duas damas, entre
as quais se acha.) Um sonho... s vezes cuido conter c dentro mais do que
a minha vida e o meu sculo... Sonhos... sonhos! A realidade  que vs sois
as duas mais lindas damas da cristandade, e que o amor  a alma do
universo!
D. FRANCISCA - O amor e a espada, senhor brigo!
CAMES, alegremente. - Por que me no dais logo as alcunhas que me ho
de ter posto os poltres do Rocio? Vingam-se com isso, que  a desforra da
poltroneria... No sabeis? Naturalmente no; vs gastais as horas nos
lavores e recreios do pao; mora aqui a doce paz do esprito.
D. CATARINA, com inteno. - Nem sempre.
D. FRANCISCA - Isto  convosco; e eu, que posso ser indiscreta, no me
detenho a ouvir mais nada. (D alguns passos para o fundo.)
D. CATARINA - Vinde c...
D. FRANCISCA - Vou-me... vou a consolar o nosso Caminha, que h de
estar um pouco enfadado... Ouviu ele o que El-rei vos disse?
CAMES - Ouviu; que tem?
D. FRANCISCA - No ouviria de boa sombra.
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CAMES - Pode ser que no... dizem-me que no. (A D. Catarina.) Pareceis
inquieta...
D. CATARINA, a D. Francisca. - No, no vades; ficai um instante.
CAMES, a D. Francisca. - Irei eu.
D. FRANCISCA - No, senhor; irei eu s. (Sai pelo fundo.)
CENA VIII
CAMES, D. CATARINA DE ATADE
CAMES, com uma reverncia. - Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina
de Atade! (D. Catarina d um passo para ele.) Mantenha-vos Deus na sua
santa guarda.
D. CATARINA - No... vinde c... (Cames detm-se.) Enfadei-vos? Vinde
um pouco mais perto. (Cames aproxima-se.) Que vos fiz eu? Duvidais de
mim?
CAMES - Cuido que me quereis ausente.
D. CATARINA - Lus! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes... falarmos a
ss... Duvidais de mim?
CAMES - No duvido de vs; no duvido da vossa ternura: da vossa
firmeza  que eu duvido.
D. CATARINA - Receiais que fraqueie algum dia?
CAMES - Receio; chorareis muitas lgrimas, muitas e amargas... mas,
cuido que fraqueareis.
D. CATARINA - Lus! juro-vos...
CAMES - Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela  sincera: subiu-me do
corao  boca. No posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por
diz-la sem rebuo. Assim me fez a natureza; assim irei  sepultura.
D. CATARINA - No, no fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o
sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, at a clera de meu pai. Vede l,
estamos a ss; se nos vira algum... (Cames d um passo para sair.) No,
vinde c. Mas, se nos vira algum, defronte um do outro, no meio de uma
sala deserta, que pensaria? No sei que pensaria; tinha medo h pouco, j
no tenho medo... amor sim... O que eu tenho  amor, meu Lus.
CAMES - Minha boa Catarina.
D. CATARINA - No me chameis boa, que eu no sei se o sou... Nem boa,
nem m.
CAMES - Divina sois
D. CATARINA - No me deis nomes que so sacrilgios.
CAMES - Que outro vos cabe?
D. CATARINA - Nenhum.
CAMES - Nenhum? - Simplesmente a minha doce e formosa senhora D.
Catarina de Atade, uma ninfa do pao, que se lembrou de amar um triste
escudeiro, sem se lembrar que seu pai a guarda para algum solar opulento,
algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o
coitado de Cames ir morrer em frica ou sia...
D. CATARINA - Teimoso sois! Sempre essas idias de frica...
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CAMES - Ou sia. Que tem isso? Digo-vos que, s vezes, a dormir,
imagino l estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante
do gentio. Imaginai agora...
D. CATARINA - No imagino nada; vs sois meu, to s meu, to-somente
meu. Que me importa o gentio, ou o Turco, ou que quer que , que no sei,
nem quero? Tinha que ver, se me deixveis, para ir s vossas fricas... E os
meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?
CAMES - No faltar quem vo-los faa, e da maior perfeio.
D. CATARINA - Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos... como
aquele da Circe, o meu retrato, dissestes vs.
CAMES, recitando.
Um mover de olhos, brando e piedoso.
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase forado um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso...
D. CATARINA - No acabeis, que me obrigareis a fugir de vexada.
CAMES - De vexada! Quando  que a rosa se vexou, por que o sol a beijou
de longe?
D. CATARINA - Bem respondido, meu claro sol.
CAMES - Deixai-me repetir que sois divina. Natrcia minha, pode a sorte
separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou
perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das
grandezas humanas, no  assim? Deixai-me cr-lo, ao menos; deixai-me
crer que h um vnculo secreto e forte, que nem os homens, nem a prpria
natureza poderia j destruir. Deixai-me crer... No me ouvis?
D. CATARINA - Ouo, ouo.
CAMES - Crer que a ltima palavra de vossos lbios ser o meu nome.
Ser? Tenha eu esta f, e no se me dar da adversidade; sentir-me-ei
afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais
homens.
D. CATARINA - Acabai!
CAMES - Que mais?
D. CATARINA - No sei; mas  to doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu
poeta! Ou antes, no, no acabeis; falai sempre, deixai-me ficar
perpetuamente a escutar-vos.
CAMES - Ai de ns! A perpetuidade  um simples instante, um instante em
que nos deixam ss nesta sala! (D. Catarina afasta-se rapidamente.) Olhai;
s a idia do perigo vos arredou de mim.
D. CATARINA - Na verdade, se nos vissem... Se algum a, por esses
reposteiros... Adeus...
CAMES - Medrosa, eterna medrosa!
D. CATARINA - Pode ser que sim; mas no est isso mesmo no meu
retrato?
Um encolhido ousar, uma brandura,
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Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento...
CAMES -
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mgico veneno
Que pde transformar meu pensamento.
D. CATARINA, indo a ele. - Pois ento? A vossa Circe manda-vos que no
duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, to prprios do lugar e da
condio; manda-vos crer e amar. Se ela s vezes foge,  porque a
espreitam; se vos no responde,  porque outros ouvidos poderiam escutla.
Entendeis?  o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta... e
agora... (Estende-lhe a mo.) Adeus!
CAMES - Ides-vos?
D. CATARINA - A rainha espera-me. Audazes fomos, Lus. No desafiemos o
pao... que esses reposteiros...
CAMES - Deixa-me ir ver!
D. CATARINA, detendo-o. - No, no. Separemo-nos.
CAMES - Adeus! (D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda; Cames
olha para a porta da direita.)
D. CATARINA - Andai, andai!
CAMES - Um instante ainda!
D. CATARINA - Imprudente! Por quem sois, ide-vos meu Lus!
CAMES - A rainha espera-vos?
D. CATARINA - Espera.
CAMES - To raro  ver-vos!
D. CATARINA - No afrontemos o cu... podem dar conosco...
CAMES - Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu
amor, e a que o faria respeitar!
D. CATARINA, aflita pegando-lhe na mo. - Reparai, meu Lus, reparai onde
estais, quem eu sou, o que so estas paredes... domai esse gnio
arrebatado, peo-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?
CAMES - Viva a minha cora gentil, a minha tmida cora! Ora vos juro que
me vou, e de corrida. Adeus!
D. CATARINA - Adeus!
CAMES, com a mo dela presa. - Adeus
D. CATARINA - Ide... deixai-me ir!
CAMES - Hoje h luar; se virdes um embuado diante das vossas janelas,
quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e ento, j no  o sol a
beijar de longe uma rosa,  o goivo que pede calor a uma estrela.
D. CATARINA - Cautela, no vos reconheam.
CAMES - Cautela haverei; mas, que me reconheam, que tem isso?
embargarei a palavra ao importuno.
D. CATARINA - Sossegai. Adeus!
CAMES - Adeus!
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(D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda, e pra diante dela, 
espera que Cames saia. Cames corteja-a com um gesto gracioso, e
dirige-se para o fundo. - Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e
aparece Caminha. - D. Catarina d um pequeno grito, e sai
precipitadamente. - Cames detm-se. Os dois homens olham-se por um
instante.)
CENA IX
CAMES, CAMINHA
CAMINHA, entrando. - Discreteveis com algum, ao que parece...
CAMES -  verdade.
CAMINHA - Ouvi de longe a vossa fala, e reconheci-a. Vi logo que era o
nosso poeta, de quem tratava h pouco com alguns fidalgos. Sois o bemamado,
entre os ltimos de Coimbra. - Com que, discreteveis... Com
alguma dama?
CAMES - Com uma dama.
CAMINHA - Certamente formosa, que no as h de outra casta nestes reais
paos. Sua Alteza cuido que continuar, e ainda em bem, algumas boas
tradies de El-rei seu pai. Damas formosas, e, quanto possvel, letradas.
So estes, dizem, os bons costumes italianos.  vs, senhor Cames, por
que no ides  Itlia?
CAMES - Irei  Itlia, mas passando por frica.
CAMINHA - Ah! Ah! para l deixar primeiro um brao, uma perna, ou um
olho... No, poupai os olhos, que so o feitio dessas damas da corte;
poupai tambm a mo, com que nos haveis de escrever to lindos versos;
isto vos digo que poupai...
CAMES - Uma palavra, senhor Pero de Andrade. Uma s palavra, mas
sincera.
CAMINHA - Dizei.
CAMES - Dissimulais algum outro pensamento. Revelai-mo... intimo-vos
que mo reveleis.
CAMINHA - Ide  Itlia, senhor Cames, ide  Itlia.
CAMES - No resistireis muito tempo ao que vos mando.
CAMINHA - Ou  frica, se o quereis... ou  Babilnia...  Babilnia melhor;
levai a harpa do desterro, mas em vez de a pendurar de um salgueiro, como
na Escritura, cantar-nos-eis a linda copla da galinha, ou comporeis umas
outras voltas ao mote, que j vos serviu to bem:
Perdigo perdeu a pena,
No h mal que lhe no venha.
Ide  Babilnia, senhor Perdigo!
CAMES, pegando-lhe no pulso. - Por vida minha, calai-vos!
CAMINHA - Vede o lugar em que estais.
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CAMES, solta-o. - Vejo; vejo tambm quem sois; s no vejo o que odiais
em mim.
CAMINHA - Nada.
CAMES - Nada?
CAMINHA - Coisa nenhuma.
CAMES - Mentis pela gorja, senhor camareiro.
CAMINHA - Minto? Vede l; ia-me deixando arrebatar, ia conspurcando com
alguma vilania esta sala de El-rei. Retra-me a tempo. Menti, dizeis vs? -
Pode ser que sim, porque eu creio que efetivamente vos odeio, mas s h
um instante, depois que me pagastes com uma injria o aviso que vos dei.
CAMES - Um aviso?
CAMINHA - Nada menos. Queria eu dizer-vos que as paredes do pao nem
so mudas, nem sempre so caladas.
CAMES - No sero; mas eu as farei caladas.
CAMINHA - Pode ser. Essa dama era...?
CAMES - No reparei bem.
CAMINHA - Fizestes mal;  prudncia reparar nas damas; prudncia e
cortesia. Com que, ides  frica? L esto os nossos em Mazago,
cometendo faanhas contra essa canalha de Mafamede; imitai-os. Vede, no
deixeis l esse brao, com que nos haveis de calar as paredes os
reposteiros.  conselho de amigo.
CAMES - Por que sereis meu amigo?
CAMINHA - No digo que o seja; o conselho  que o .
CAMES - Credes, ento...?
CAMINHA - Que poupareis uma grande dor e um maior escndalo.
CAMES - Percebo-vos. Imaginais que amo alguma dama? Suponhamos
que sim. Qual  o meu delito? Em que ordenao, em que rescrito, em que
bula, em que escritura, divina ou humana, foi j dado como delito amaremse
duas criaturas?
CAMINHA - Deixai a corte.
CAMES - Digo-vos que no.
CAMINHA - Oxal que no!
CAMES,  parte. - Este homem... que h neste homem? Lealdade ou
perfdia? (Alto.) Adeus, senhor Caminha. (Pra no meio da cena). Por que
no tratamos de versos?... Fora muito melhor...
CAMINHA. - Adeus, senhor Cames. (Cames sai.)
CENA X
CAMINHA, logo D. CATARINA DE ATADE
CAMINHA - Ide ide, magro poeta de camarins... (Desce ao proscnio.) Era
ela, de certo, era ela que a estava com ele, no meio do pao, esquecidos de
El-rei e de todos... Oh temeridade do amor! Do amor? ele... ele... Mas seria
ela deveras?... Que outra podia ser?
D. CATARINA, espreita e entra. - Senhor... senhor...
CAMINHA - Ela!
15
D. CATARINA - Ouvi tudo... tudo o que lhe dissestes... e peo-vos que no
nos faais mal. Sois amigo de meu pai, ele  vosso amigo; no lhe digais
nada. Fui imprudente, fui, mas que quereis? (Vendo que Caminha no diz
nada.) Ento? falai... poderei contar convosco?
CAMINHA - Comigo? (D. Catarina inquieta, aflita, pega-lhe na mo; ele
retira-lha com aspereza.) Contar comigo! para que, minha senhora D.
Catarina? Amais um mancebo digno, por que vs o amais... muito, no?
D. CATARINA - Muito.
CAMINHA - Muito, dizeis... E reis vs que estveis aqui, com ele, nesta sala
solitria, juntos um do outro, a falarem naturalmente do cu e da terra... ou
s do cu, que  a terra dos namorados. Que dizeis?...
D. CATARINA, baixando os olhos. - Senhor...
CAMINHA - Galanteios, galanteios, de que se h de falar l fora... (Gesto de
D. Catarina.) Ah! cuidais que estes amores nascem e morrem no pao? -
No; passam alm; descem  rua, so o mantimento dos ociosos e ainda
dos que trabalham, porque, ao sero, principalmente nas noites de inverno,
em que se h de ocupar a gente, depois de fazer as suas oraes? Com que,
reis vs? Pois digo-vos que o no sabia; suspeitava, porque no podia
talvez ser outra... E confessais que lhe quereis muito. Muito?
D. CATARINA - Pode ser fraqueza; mas crime...onde est o crime?
CAMINHA - O crime est em desonrar as cs de um nobre homem,
arrastando-lhe o nome por vielas e praas; o crime est em escandalizar a
corte, com essas ternuras, imprprias do alto cargo que exerceis, do vosso
sexo e estado... esse  o crime. E parece-vos pequeno?
D. CATARINA - Bem; desculpai-me, no direis nada...
CAMINHA - No sei.
D. CATARINA - Peo-vos... de joelhos at... (Faz um gesto para ajoelhar-se,
ele impede-lho.)
CAMINHA - Perderieis o tempo; eu sou amigo de vosso pai.
D. CATARINA - Contar-lhe-eis tudo?
CAMINHA - Talvez.
D. CATARINA - Bem mo diziam sempre; sois inimigo de Cames.
CAMINHA - E sou.
D. CATARINA - Que vos fez ele?
CAMINHA - Que me fez? (Pausa.) D. Catarina de Atade, quereis saber o que
me fez o vosso Cames? No  s a sua soberba que me afronta; fosse s
isso, e que me importava um frouxo cerzidor de palavras, sem arte nem
conceito?
D. CATARINA - Acabai.
CAMINHA - Tambm no  porque ele vos ama, que eu o odeio; mas vs,
senhora D. Catarina de Atade, vs o amais... eis o crime de Cames.
Entendeis?
D. Catarina, depois de um instante de assombro. - No quero entender.
CAMINHA - Sim, que tambm eu vos quero, ouvis? - E quero-vos muito...
mais do que ele, e melhor do que ele; porque o meu amor tem o impulso do
dio, nutre-se do silncio, o desdm o avigora, e no fao alarde nem
escndalo;  um amor...
D. CATARINA - Calai-vos! Pela Virgem, calai-vos!
16
CAMINHA - Que me cale? Obedecerei. (Faz uma reverncia.) Mandais
alguma outra coisa?
D. CATARINA - No, ficai, ficai. Jurai-me que no direis nada...
CAMINHA - Depois da confisso que vos fiz, esse pedido chega a ser mofa.
Que no diga nada? Direi tudo, revelarei tudo a vosso pai. No sei se a ao
 m ou boa; sei que vos amo, e que detesto esse rufio, a quem vadios
deram foros de letrado.
D. CATARINA - Senhor!  demais!
CAMINHA - Defendei-o, no  assim?
D. CATARINA - Odiai-o, se vos apraz; insulta-o,  que no  de cavaleiro...
CAMINHA - Que tem? O amor desprezado sangra e fere.
D. CATARINA - Deixai que lhe chame um amor vilo.
CAMINHA - Sois vs agora que me injuriais. Adeus, senhora D. Catarina de
Atade! (Dirige-se para o fundo.)
D. CATARINA, tomando-lhe o passo. - No! Agora no vos peo... intimovos
que vos caleis.
CAMINHA - Que recompensa me dais?
D. CATARINA - A vossa conscincia.
CAMINHA - Deixai em paz os que dormem. Quereis que vos prometa alguma
coisa? Uma s coisa prometo; no contar a vosso pai o que se passou. Mas,
se por denncia ou desconfiana, for interrogado por ele, ento lhe direi
tudo. E duas vezes farei bem: - no faltarei  verdade, que  dever de
cavaleiro; e depois... chorareis lgrimas de sangue; e eu prefiro ver-vos
chorar a ver-vos sorrir. A vossa angstia ser a minha consolao. Onde
falecerdes de pura saudade, ai me glorificarei eu. Chamai-me agora
perverso, se o quereis; eu respondo que vos amo, e que no tenho outra
virtude. (Vai a sair, encontra-se com D. Francisca de Arago; corteja-a e
sai.)
CENA XI
D. CATARINA DE ATADE, D. FRANCISCA DE ARAGO
D. FRANCISCA - Vai afrontado o nosso poeta. Que ter ele? (Reparando em
D. Catarina.) Que tendes vs? Que foi?
D. CATARINA - Tudo sabe.
D. FRANCISCA - Quem?
D. CATARINA - Esse homem. Achou-nos nesta sala; eu tive medo; disse-lhe
tudo.
D. FRANCISCA - Imprudente!
D. CATARINA - Duas vezes imprudente; deixei-me estar ao lado do meu
Lus, a ouvir-lhe as palavras to nobres, to apaixonadas... e o tempo
corria... e podiam espreitar-nos... Credes que o Caminha diga alguma coisa
a meu pai?
D. FRANCISCA - Talvez no.
D. CATARINA - Quem sabe? Ele ama-me.
D. FRANCISCA - O Caminha?
17
D. CATARINA - Disse-mo agora. Que admira? Acha-me formosa, como os
outros. Triste dom  esse. Sou formosa para no ser feliz, para ser amada
s ocultas, odiada s escancaras, e, talvez... Se meu pai vier a saber... que
far ele, amiga minha?
D. FRANCISCA - O senhor D. Antnio  to severo!
D. CATARINA - Ir ter com El-rei, pedir-lhe- que o castigue, que o
encarcere, no? E por minha causa... No; primeiro irei eu... (Dirige-se para
a porta da direita.)
D. FRANCISCA - Onde ides?
D. CATARINA - Vou falar a El-rei... Ou, no... (Encaminha-se para a porta
da esquerda.) Vou ter com a rainha; contar-lhe-ei tudo; ela me amparar.
Credes que no?
D. FRANCISCA - Creio que sim.
D. CATARINA - Irei, ajoelhar-me-ei a seus ps. Ela  rainha, mas  tambm
mulher... e ama-me. (Sai pela esquerda.)
CENA XII
D. FRANCISCA DE ARAGO, D. ANTNIO DE LIMA, depois, D. MANUEL DE
PORTUGAL
D. FRANCISCA, depois de um momento de reflexo. - Talvez chegue cedo
demais. (D um passo para a porta da esquerda.) No; melhor  que lhe
fale... mas, se se aventa a notcia? Meu Deus, no sei... no sei... Ouo
passos... Entra D. Antnio de Lima. Ah!
D. ANTNIO - Que foi?
D. FRANCISCA - Nada, nada... no sabia quem era. Sois vs... (Risonha.)
Chegaram galees da sia; boas notcias, dizem...
D. ANTNIO - Eu no ouvi dizer nada. (Querendo retirar-se.) Permitis?...
D. FRANCISCA - Jesus! Que tendes? Que ar  esse? (Vendo entrar D.
Manuel de Portugal.) Vinde c, senhor D. Manuel de Portugal, vinde saber o
que tem este meu bom e velho amigo, que me no quer... (Segurando na
mo de D. Antnio ). Ento, eu j no sou a vossa frescura de maio?
D. ANTNIO, sorrindo a custo. - Sois, sois. Manhosamente sutil, ou
sutilmente manhosa,  escolha; eu  que sou uma triste secura de
dezembro, que me vou e vos deixo. Permitis, no? (Corteja-a e dirige-se
para a porta.)
D. MANUEL, interpondo-se. - Deixai que vos levante o reposteiro. (Levanta o
reposteiro.) Ides ter com Sua Alteza, suponho?
D. ANTNIO - Vou.
D. MANUEL - Ides levar-lhe notcias da ndia?
D. ANTNIO - Sabeis que no  o meu cargo...
D. MANUEL - Sei, sei; mas dizem que... Senhor D. Antnio, acho-vos o rosto
anuviado, alguma coisa vos penaliza ou turva. Sabeis que sou vosso amigo;
perdoai se vos interrogo. Que foi? Que h?
18
D. ANTNIO, gravemente. - Senhor D. Manuel, tendes vinte e sete anos, eu
conto sessenta; deixai-me passar. (D. Manuel inclina-se, levantando o
reposteiro. D. Antnio desaparece.)
CENA XIII
D. MANUEL DE PORTUGAL, D. FRANCISCA DE ARAGO
D. MANUEL - Vai dizer tudo a El-rei.
D. FRANCISCA - Credes?
D. MANUEL - Cames contou-me o encontro que tivera com o Caminha
aqui; eu ia falar ao senhor D. Antnio; achei-o agora mesmo, ao p de uma
janela, com o dissimulado Caminha, que lhe dizia: "No vos nego, senhor D.
Antnio, que os achei naquela sala, a ss e que vossa filha fugiu desde que
eu l entrei."
D. FRANCISCA - Ouvistes isso?
D. MANUEL - D. Antnio ficou severo e triste. Querem escndalo?... foram
as suas palavras. E no disse outras; apertou a mo ao Caminha, e seguiu
para c... Penso que foi pedir alguma coisa a El-rei. Talvez o desterro.
D. FRANCISCA - O desterro?
D. MANUEL - Talvez. Cames h de voltar agora aqui; disse-me que viria
falar ao senhor D. Antnio. Para qu? Que outros lhe falem, sim; mas o meu
Lus que no sabe conter-se... D. Catarina?
D. FRANCISCA - Foi lanar-se aos ps da rainha, a pedir-lhe proteo.
D. MANUEL - Outra imprudncia. Foi h muito?
D. FRANCISCA - Pouco h.
D. MANUEL - Ide ter com ela, se  tempo, dizei-lhe que no, que no
convm falar nada. (D. Francisca vai a sair, e pra ) Recusais?
D. FRANCISCA - Vou, vou. Pensava comigo uma coisa. (D. Manuel vai a
ela.) Pensava que  preciso querer muito aqueles dois para nos
esquecermos assim de ns.
D. MANUEL -  verdade. E no h mais nobre motivo da nossa mtua
indiferena. Indiferena, no; no o , nem o podia ser nunca. No meio de
toda essa angstia que nos cerca, poderia eu esquecer a minha doce
Arago? Poderieis vs esquecer-me. Ide agora, ns que somos felizes,
temos o dever de consolar os desgraados. (D. Francisca sai pela esquerda.)
CENA XIV
D. MANUEL DE PORTUGAL, logo D. ANTNIO DE LIMA
D. MANUEL - Se perco o confidente dos meus amores, da minha mocidade,
o meu companheiro de longas horas... No  impossvel. - El-rei conceder
o que lhe pedir D. Antnio. A culpa, - fora  confess-lo, - a culpa  dele,
do meu Cames, do meu impetuoso poeta; um corao sem freio... (Abrese
o reposteiro, aparece D. Antnio.) D. Antnio!
19
D. ANTNIO, da porta, jubiloso. - Interrogastes-me h pouco; agora hei
tempo de vos responder.
D. MANUEL - Talvez no seja preciso.
D. ANTNIO, adianta-se - Adivinhais ento?
D. MANUEL - Pode ser que sim.
D. ANTNIO - Creio que adivinhais.
D. MANUEL - Sua Alteza concedeu-vos o desterro de Cames.
D. ANTNIO - Esse  o nome da pena: a realidade  que Sua Alteza
restituiu a honra a um vassalo, e a paz a um ancio.
D. MANUEL - Senhor D. Antnio...
D. ANTNIO - Nem mais uma palavra, senhor D. Manuel de Portugal, nem
mais uma palavra. - Mancebo sois;  natural que vos ponhais do lado do
amor; eu sou velho, e a velhice ama o respeito. At  vista, senhor D.
Manuel, e no turveis o meu contentamento. (D um passo para sair.)
D. MANUEL - Se matais vossa filha?
D. ANTNIO - No a matarei. Amores fceis de curar so esses que a
brotam no meio de galanteios e versos. Versos curam tudo. S no curam a
honra os versos; mas para a honra d Deus um rei austero, em pai
inflexvel... At  vista, senhor D. Manuel. (Sai pela esquerda.)
CENA XV
D. MANUEL DE PORTUGAL, logo CAMES
D. MANUEL - Perdido... est tudo perdido.(Cames entra pelo fundo.) Meu
pobre Lus! Se soubesses...
CAMES - Que h?
D. MANUEL - El-rei... El-rei atendeu s splicas do senhor D. Antnio. Est
tudo perdido.
CAMES - E que pena me cabe?
D. MANUEL - Desterra-vos da corte.
CAMES - Desterrado! Mas eu vou ter com Sua Alteza, eu direi...
D. MANUEL, aquietando-o. - No direis nada; no tendes mais que cumprir
a real ordem; deixai que os vossos amigos faam alguma coisa; talvez
logrem abrandar o rigor da pena. Vs no fareis mais do que agrav-la.
CAMES - Desterrado! E para onde?
D. MANUEL - No sei. Desterrado da corte  o que  certo. Vede... no h
mais demorar no pao. Saiamos.
CAMES - A me vou eu, pois, caminho do desterro, e no sei se da misria!
Venceu ento o Caminha? Talvez os versos dele fiquem assim melhores. Se
nos vai dar uma nova Eneida, o Caminha? Pode ser, tudo pode ser...
Desterrado da corte! C me ficam os melhores dias, e as mais fundas
saudades. Crede, senhor D. Manuel, podeis crer que as mais fundas
saudades c me ficam.
D. MANUEL - Tornareis, tornareis...
CAMES - E ela? J o saber ela?
20
D. MANUEL - Cuido que o senhor D. Antnio foi dizer-lho em pessoa. Deus!
A vem eles.
CENA XVI
OS MESMOS, D. ANTNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATADE
D. Antnio aparece  porta da esquerda, trazendo D. Catarina pela mo. -
D. Catarina vem profundamente abatida.
D. CATARINA,  parte, vendo Cames. - Ele! Dai-me fora, meu Deus! (D.
Antnio corteja os dois, e segue na direo do fundo. Cames d um passo
para falar-lhe, mas D. Manuel contm-no. D. Catarina, prestes a sair, volve
a cabea para trs.)
CENA XVII
D. MANUEL DE PORTUGAL, CAMES
CAMES - Ela a vai... talvez para sempre... Credes que para sempre?
D. MANUEL - No. Saiamos!
CAMES - Vamos l; deixemos estas salas que to funestas me foram.
(Indo ao fundo e olhando para dentro.) Ela a vai, a minha estrela, a vai a
resvalar no abismo, de onde no sei se a levantarei mais... Nem eu...
(Voltando-se para D. Manuel.) Nem vs, meu amigo, nem vs que me
quereis tanto, ningum.
D. MANUEL - Desanimais depressa, Lus. Por que ningum?
CAMES - No saberia dizer-vos; mas sinto-o aqui no corao. Essa clara
luz, essa doce madrugada da minha vida, apagou-se agora mesmo, e de
uma vez.
D. MANUEL - Confiai em mim, nos meus amigos, nos vossos amigos. Irei ter
com eles; induzi-los-ei a....
CAMES - A qu? A mortificarem um camareiro-mor, a fim de servir um
triste escudeiro que j estar a caminho de frica?
D. MANUEL - Ides  frica?
CAMES - Pode ser; sinto umas tonteiras africanas. Pois que me fecham a
porta dos amores, abrirei eu mesmo as da guerra. Irei l pelejar, ou no sei
se morrer... frica, disse eu? Pode ser que sia tambm, ou sia s; o que
me der na imaginao.
D. MANUEL - Saiamos.
CAMES - E agora, adeus, infiis paredes; sede ao menos com passivas;
guardai-ma, guardai-ma bem, a minha formosa D. Catarina! (A D. Manuel.)
Credes que tenho vontade de chorar?
D. MANUEL - Saiamos, Lus!
CAMES - Eu no choro, no; no choro... no quero... (Forcejando por ser
alegre.) Vedes? at rio! Vou-me para bem longe. Considerando bem, sia 
21
melhor; l rematou a audcia lusitana o seu edifcio, l irei escutar o rumor
dos passos do nosso Vasco. E este sonho, esta quimera, esta coisa que me
flameja c dentro, quem sabe se... Um grande sonho, senhor D. Manuel...
Vede l, ao longe, na imensidade desses mares, nunca dantes navegados,
uma figura rtila, que se debrua dos balces da aurora, coroada de palmas
indianas?  a nossa glria,  a nossa glria que alonga os olhos, como a
pedir o seu esposo ocidental. E nenhum lhe vai dar o sculo que a fecunde;
nenhum filho desta terra, nenhum que empunhe a tuba da imortalidade,
para diz-la aos quatro ventos do cu... Nenhum... (Vai amortecendo a
voz.) Nenhum... (Pausa, fita D. Manuel, como se acordasse, e d de
ombros.) Uma grande quimera, senhor D. Manuel. Vamos ao nosso
desterro.
Cai o Pano.
Sobre o autor e sua obra
22
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de
1839 e faleceu na mesma cidade, em 29 de
setembro de 1908. Filho de mulato,
brasileiro, e de branca, portuguesa; era
gago, epilptico, pobre,  por causa disto
no pde estudar em escolas e tornou-se
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense",
foi aprendiz de tipgrafo na Imprensa
Nacional, onde conheceu seu protetor,
Manuel Antonio de Almeida; foi revisor de
provas na Editora Paula Brito e no "Correio
Mercantil" e colaborador em vrios jornais e
revistas da poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica,
muitos dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr.
Semana, Job, M.A., Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao 
sua vida literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o
mais belo soneto de sua produco: "A Carolina", publicado no livro
"Relquias de Casa Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
23
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase
Ministro", "Os Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de
1881 a 1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de
Casa Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de
Botnica", crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua
obra  de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros.
Em toda sua obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou
consumado, e muito de filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada
no seu romance "Quincas Borba". Sua tcnica de composio no romance 
muito importante para a compreenso da obra: no h homogeneidade na
extenso dos captulos: ora curtos, ora longos, no existe normalmente a
seqncia linear, isto , muitas vezes um captulo no tem um final de ao,
que ir continuar no no imediatamente seguinte, mas em outro um pouco
distante. Esta tcnica procura prender a ateno do leitor at o fim do livro,
o que realmente consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua
obra vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios,
constituindo-se no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um
escritor nacional. Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante
de sua obra, a parte de fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e
os romances a partir da fase que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de
Brs Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu
prprio sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo
simples, sem nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais
eloqentes caractersticas. Cuidou, em suas obras, mais do homem do que
da paisagem. No foi grande poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e
depois mostrou-se parnasiano. Para Machado de Assis o homem  egosta,
impassvel diante da felicidade ou infelicidade do seu semelhante. 0
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sofrimento  inerente  prpria condio humana. 0 homem sonha com a
felicidade, sem suspeitar que tudo  Iluso. Machado aconselha ento a
solido, o Isolamento, por no crer no solidarismo humano.
No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo.
Como critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode
aberrar das condies atuais da sociedade para perder-se no mundo
labirntico das abstraes. 0 teatro  para o povo o que o Coro era para o
antigo povo grego: uma iniciativa de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o
soneto, dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a
alternncia do octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos
a Artur de Oliveira. Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou
ainda o ritmo dos agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma
incomparvel lio de poesia quando, na ocasio comemorativa do
centenrio do Marqus de Pombal, publicou, sob o ttulo de A Suprema
Injria, uma srie de quatorze sonetos, onde no h dois iguais na sua
forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a
primeira fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e
escreve poesia, a quem devemos pelo o que seria diferente da j representa
uma evoluo. Vai eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia
romntica nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva
(1875), Helena (1876) e Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo
dos personagens e do entrecho; revela-se a personalidade do autor na
preocupao mais acentuada do estudo dos caracteres. Mas as situaes
que arma, para os revelar, e a prpria compreenso que deles tem, tudo
trai a viso romntica, ainda que mitigada pela analise psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres
de linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior
penetrao, a lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais
complexos, o progresso  significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena,
a confinar por vezes com a inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei
em 1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro
anos, rijos e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui
acompanhado ao cemitrio por onze amigos". Galhofando dos ascendentes,
fala da prpria genealogia. Assevera que morreu de pneumonia apanhada
25
quando trabalhava num invento farmacutico, um emplastro
medicamentoso.
Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos
dias de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia:
montado num hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie,
at o alto de uma montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm
dos pais, tiveram grande influncia na educao do pequeno Brs Cubas
trs pessoas: tio Joo, homem de lngua solta e vida galante; tio Ildefonso,
cnego, piedoso e severo; Dona Emerenciana, tia materna, que viveu pouco
tempo. Brs passou uma infncia de menino traquinas, mimado
demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem
teve as primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs
comea a gastar demais, assumindo compromissos graves e endividandose.
Marcela gostava de jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos.
"Marcela amou-me, diz Brs Cubas, durante quinze meses e onze contos de
ris". Quando o pai tomou conhecimento dos esbanjamentos do filho,
mandou-o para a Europa: "vais cursar uma Universidade", justificou. Em
Coimbra, Brs segue o curso jurdico e bacharela-se. Depois, atendendo a
um chamado do pai, volta ao Rio: a me estava moribunda. E, de fato,
apenas chega ao Brasil, a me falece. Passando uns dias na Tijuca, conhece
Eugnia, moa bonita, mas com um defeito na perna que a fazia coxear um
pouco, com ela mantm um passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo
deputado. Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura
aumentar o circulo de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o
caminho para o futuro deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao
Conselheiro Dutra que promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida
ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela
qual se apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs
estavam prestes a realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo.
Entretanto aconteceu um imprevisto: surge Lobo Neves que no somente
lhe rouba a namorada, mas tambm cai nas boas graas do Conselheiro
Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente
desapontado e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um
desastre. Virglia casa-se com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito
Deputado o marido. Mas, na verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por
interesse, e ama realmente a Brs Cubas. Virglia e Brs principiam a
encontrar-se com freqncia e, em breve, tornam-se amantes. Lobo Neves
adorava a esposa e nela confiava inteiramente. Alis no tinha muito tempo
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para observar o que se passava, j que estava entregue totalmente 
poltica.
Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de
escola primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua.
Depois do encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe
roubara o relgio. Os encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam
comentrios e mexericos dos vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse
motivo, Brs prope a Virglia a fuga para um lugar distante. Virglia, porm,
pensa no marido que a ama e na famlia, e sugere "uma casinha s nossa",
metida num jardim, em alguma rua escondida. A idia parece boa a Brs,
que sai remoendo a proposta: "uma casinha solitria, em alguma rua
escura". Virglia e sua ex-empregada, chamada Dona Plcida, se
encarregam de adornar a casa e, aparentemente, quem ali reside  Dona
Plcida. Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraos, e sem
despertarem suspeitas. Sucedeu que, de certa feita, por motivos polticos,
Lobo Neves foi designado como presidente de uma provncia e, dessa forma,
teria de afastar-se com a mulher. Brs fica desesperado e pede a Virglia
que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar
ao amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs
aceita. Os mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina,
procura fazer ver ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa.
Mais por superstio do que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba
no aceitando mais o cargo de presidente, porque o decreto de nomeao
sara publicado no Dirio oficial num dia 13: Lobo Neves tinha pavor pelo
nmero, um nmero fatdico. Lobo Neves recebe uma carta annima
denunciando os amores da esposa com o amigo. Isso faz com que os dois
amantes se mostrem mais reservados, embora continuem encontrando-se
na Gamboa (onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens:
Lobo neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o
interior do pas levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e
esquecer a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs,
volta a insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada,
chamava-se Nh-lol. Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela
pretendente, mas Nh-lol vem a falecer durante urna epidemia. o tempo
vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se
tambm com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia
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atrado anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os
amores de Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe
restitui o relgio, passando a ser um freqentador da casa de Brs.
Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma
herana de um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova
teoria filosfico-religiosa, o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0
prprio Brs Cubas passa a interessar-se muito pelas teorias de Quincas
Borba. Morre, por esse tempo, o Lobo Neves, e Virgilia "chorou com
sinceridade o marido, como o havia trado com sinceridade". Tambm vem a
falecer Quincas, Borba, que havia enlouquecido completamente. Brs Cubas
deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba, por causa de urna
molstia que apanhara quando tratava de um invento seu, denominado "
emplasto Brs Cubas".
E o livro conclui:
"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me
com um pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de
negativas: no tive filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de
nossa misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa
acompanha os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura
fragmentada, ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada
deixou. A vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita.
Acomodao cnica ao erro, ou melhor, a justificao moral interior
racionalizada. Pessimismo (influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e
Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na
Literatura Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo
entre dois mundos, foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o
desprezo s idealizaes romnticas e ferindo o cerne do narrador
onisciente, que tudo v e tudo julga, Machado deixou emergir a conscincia
nua do indivduo, fraco e incoerente. 0 que restou foram as memrias de
um homem igual a tantos outros, o cauto e desfrutador Brs Cubas.
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Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte.
Criou uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal,
eterno, comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse
principio indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que
se encontram, frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s
daro para sustentar uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia.
A tribo que vence, ganha as batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e
sandice condimentam as lies de Quincas Borba.
0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome.
Afinal Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse
antes sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado
de preto. Um filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu
a Piedade, viva de parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o
herdeiro. Rubio foi o melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de
Brs Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo.
Herdeiro de tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma
em Barcelona, escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias,
dinheiro, livros, a filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula
nica do testamento era tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E
o pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado
pelo tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de
mostr-la a todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia
aprendeu logo e bem a arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o...
Busca o dinheiro. Ganha presentes riqussimos. O marido funda at a
sociedade Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os
seus desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre
Rubio! 0 dinheiro acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai
chegando. Rubio passa pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira, 
gira...) certo que  Napoleo III . Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do
sanatrio do Rio e vai para Barbacena. L morre. E trs dias depois
encontraram o co Quincas Borba, tambm morto, numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens
risos, ri-te.  a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias
morais, concluda com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas:
"Ao vencedoras batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera,
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ambies polticas acabam levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um
humilde mestre-escola, ingnuo e puro, envolve-se em um novo mundo,
violento e agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado.
Anlise psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a
fortuna arrasta-o  loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar
de vaidoso rico, explorado pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica
ao positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda
metade do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da
seleo natural que, na poca, saam do campo da biologia para impregnar
a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho
Novo (Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela
em que passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos
apelidaram de Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia
quando Bentinho j est com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu,
com quatorze.
Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de
Bentinho, viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma
promessa, se fosse bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso
(padre ou freira, conforme o sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a
promessa: Bentinho iria para o seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se
transforma em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se
tornando um grave problema para os dois, que buscam todas as maneiras
de evit-lo. Justina, prima de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a
quem Bentinho suplica que interceda com a me em seu favor, se nega.
Jos Dias, velho empregado da casa, muito estimado, diz que o problema
no  fcil, pois o melhor , antes, aplainar o caminho. 0 prprio
Bentinho, de ndole tmida, tenta falar com a me, mas nem sequer
consegue dizer-lhe o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas de
evitar o seminrio. De qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que,
acontea o que acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas
ficar apenas algum tempo. Depois sair e sero felizes.
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No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu
amigo e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e
as visitas semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem
uma idia: Dona Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro
modo, isto , custeando as despesas de um seminarista pobre, ficando
Bentinho livre do seminrio. A idia vinga e Bentinho retoma  casa. Anos
depois, j formado em Direito, casa-se com Capitu e comeam uma vida
repleta de felicidades. E essa felicidade ainda se torna maior quando
Escobar, que tambm sara do seminrio, casa-se com Sancha, amiga de
Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma
filha,  qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se
pode chamar tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso,
fazem promessas e rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a
alegria dos pais. Chama-se Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de
Bentinho e Capitu. Certo dia, Escobar se aventura nadando pelo mar agitado
e morre afogado. Sancha retira-se para o Paran, onde possua parentes.
E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se
tornando uni retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo
cabelo, os mesmos olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida
atormenta Bentinho, e uma infinidade de pequenas coisas que no passado
haviam passado despercebidas comeam a avolumar-se confirmando as
suspeitas: Capitu o trara. Um dia explode com Capitu, que no consegue
encontrar meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas desculpas confirmam
definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o filho de
Escobar para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a
falecer. Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia
do pai. Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no
Oriente, tambm morre.
 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e
o meu melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o
destino que acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja
leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS
DUAS PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador
coloca-se num ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem
contamin-los, episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas
apenas da carga emocional correspondente ao impacto do momento da
ocorrncia. Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do
passado o ngulo do prprio momento da evocao, marcado pelo
desmoronamento da iluso de sua felicidade. Dessa forma temos uma dupla
viso da experincia, reconstituda em termos de exposio e de anlise. A
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viso esfumaada do adultrio  um dos requintes do Bruxo do Cosme
Velho (Machado). Parece inspirado no drama de Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte
criao de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai
tecendo o seu destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles. 
medida que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus
temperamentos diversos: so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado,
Pedro  dissimulado e conservador  o que vem a ser motivo de brigas
entre os dois. J adultos, a causa principal de suas divergncias passa a ser
de ordem poltica  Paulo  republicano e Pedro, monarquista. Estamos em
plena poca da Proclamao da Repblica, quando decorre a ao do
romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem
ambos gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhumdos
dois:  retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e
alegrias levou o conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0
conselheiro  mais um grande personagem da galeria machadiana, que
reaparecer como memorialista no prximo e ltimo romance do autor:
velho diplomata aposentado, de hbitos discretos e gosto requintado,
amante de citaes eruditas, muitas vezes interpreta o pensamento do
prprio romancista.
As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de
Flora, tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua.
Continuam a se desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se
elegeram deputados, e s se reconciliam ao fim do livro, com novo
juramento de amizade eterna, este feito junto ao leito da me agonizante.
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias 
situao poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela
ambigidade e contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados
paralelamente, ao longo das memrias do conselheiro Aires, personagem
surgido em Esa e Jac: o do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo.
Trata-se de um livro concebido em tom ntimo e delicado, s vezes repleto
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de melancolia. Nele Machado de Assis ps muito dos ltimos anos de sua
vida com Carolina, falecida quatro anos antes da publicao. No h muito
que contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de um casal de velhos.
0 estilo  de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice, pretendeu com
este livro prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em tom de
mal disfarada tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra
machadiana. Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada
pelo ceticismo risonho do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma
atmosfera dos seus primeiros romances: os seres so de eleio e a vida
gira em torno do amor. Distingue-o, porm, e torna-a muito superior
queles a mestria do ofcio, o domnio do instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente;
observa como simples comparsa os personagens principais, procura
adivinhar-lhes o ntimo atravs de suposies prprias ou atravs de
informaes alheias  a dar alguma idia do processo de Henry James, este,
entretanto, muito outro, com outras intenes e de outra tessitura.
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